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      EDITORIAL

      [ENTREVISTA] Mulheres na Arquitetura de Curitiba — Eleonora Beltrão, Dilva Busarello e Isabela Fiori

      7  março  2026 | ARTE

      Para o Dia Internacional da Mulher, convidamos para uma conversa três mulheres que fazem parte da história da arquitetura e do urbanismo de Curitiba: Isabela Fiori, formada pela UFPR e representante de uma nova geração atuante e engajada; e Eleonora Beltrão e Dilva Slomp Busarello, integrantes das primeiras turmas do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR e protagonistas na transformação urbana da nossa cidade.

      SOBRE SER MULHER NOS ANOS 60

      Isabela Fiori pergunta — Hoje, em 2026, cerca de 75% dos estudantes do curso de Arquitetura da UFPR são mulheres. Mas vocês fizeram parte das primeiras turmas do curso. Como era, naquela época, ser mulher na faculdade e no campo da arquitetura?

      Eleonora Beltrão — Na verdade, quando começamos, ninguém conhecia muito bem o que era arquitetura. Era algo completamente novo no Paraná. Existiam poucos arquitetos que a gente sabia quem eram — alguns nomes como Caron, Niemeyer ou Artigas. Então, quando resolvemos estudar arquitetura, era quase uma aventura. Eu resolvi ser arquiteta ainda menina, depois de ver um arquiteto inglês trabalhando. Achei aquilo fascinante, mas era algo muito distante na época.

      Dilva Slomp Busarello — Também não existia muito essa distinção entre homens e mulheres dentro da escola. Entre os colegas, sempre houve respeito e parceria. Nós éramos poucas mulheres, claro, mas sempre fomos muito bem recebidas.

      Eleonora Beltrão — Dentro da universidade, os colegas eram muito gentis e solidários. A gente chegava na cantina e quase só tinha homens, mas sempre havia muito respeito.

      Dilva Slomp Busarello — Às vezes havia algum comportamento inadequado por parte de professores, mas entre os colegas não havia problemas. No mundo, de maneira geral, existia muito machismo, mas dentro da escola nós nos sentíamos bastante acolhidas.

       

      O OLHAR FEMININO NA ARQUITETURA

      Isabela Fiori pergunta — Vocês conseguem perceber alguma contribuição do olhar feminino na arquitetura ou no urbanismo?

      Eleonora Beltrão — Eu acho que não existe essa divisão. A mulher participa do todo. Mas acredito que a mulher costuma trazer mais delicadeza, mais criatividade e um olhar mais detalhista para os projetos.

      Dilva Slomp Busarello — É uma contribuição no conjunto. Não é algo separado.
      É um tempero que acrescenta sensibilidade e atenção aos detalhes.

       

      REFERÊNCIAS E PROFESSORES QUE MARCARAM A FORMAÇÃO

      Isabela Fiori pergunta — Vocês tiveram professores ou pessoas que foram importantes na formação de vocês?

      Eleonora Beltrão — Tive vários professores importantes. O Luiz Forte Neto era extremamente gentil e generoso. O professor Meister era muito correto, muito rigoroso. Mas quem realmente abriu minha cabeça foi o arquiteto Sérgio Bernardes. Logo depois de me formar, fiz um estágio com ele no Rio de Janeiro.

      Dilva Slomp Busarello — Também tive grandes professores, como Roberto Gandolfi e Luiz Forte Neto. Desde o primeiro ano eu já estagiava no escritório do Gandolfi.

      Pouco tempo depois de formada, me tornei sócia do escritório Forte & Gandolfi. Trabalhamos muitos anos juntos e até hoje, em alguns projetos relacionados a obras antigas, ainda colaboramos.

       

      PROJETOS MARCANTES NA HISTÓRIA

      Eleonora Beltrão — Um cliente me procurou para projetar uma casa em um terreno muito difícil, em Caiobá. Eu disse que não tinha experiência suficiente para aquele projeto, mas sugeri que ele procurasse o Sérgio Bernardes. Fomos até o Rio conversar com ele.

      O Sérgio aceitou fazer o estudo preliminar, mas disse que quem iria desenvolver o projeto, detalhar e acompanhar a obra seria eu. Aquilo foi um grande desafio, mas também foi um aprendizado extraordinário. Foi um impulso muito importante no início da minha carreira.

      Dilva Slomp Busarello — Uma obra muito marcante na minha trajetória é o edifício da Emater, projetado em 1977. O edifício foi implantado em um terreno privilegiado e trabalhamos muito a orientação solar. Criamos uma fachada inclinada voltada para o norte, com floreiras.

      No inverno, o sol entra no edifício, trazendo luz e calor. No verão, as floreiras fazem sombra e evitam o aquecimento excessivo.

      Hoje falamos muito de sustentabilidade, biofilia e conforto ambiental, mas naquela época essas ideias ainda não eram discutidas. Muitas dessas soluções surgiram de forma intuitiva. Até hoje o edifício é reconhecido como um exemplo pioneiro de arquitetura sustentável.

       

      COMO NASCEU O CURSO DE ARQUITETURA DA UFPR

      Eleonora Beltrão — Quando fui me inscrever na universidade, em 1960, existiam três opções: engenharia civil, engenharia mecânica ou arquitetura. Mas para fazer arquitetura era necessário cursar dois anos de engenharia civil primeiro. Estudei muito para conseguir concluir esses dois anos sem nenhuma dependência, porque a promessa era que o curso de arquitetura abriria no terceiro ano.

      Quando chegou o momento, surgiu a notícia de que talvez o curso não fosse abrir. Eu não aceitei isso. Comecei a visitar os membros do Conselho Técnico da universidade para pedir que cumprissem a promessa. Peguei a caminhonete do meu irmão e fui de casa em casa conversar com os professores. Expliquei a situação e pedi que reconsiderassem a decisão.

      Depois dessas conversas, eles tiveram a ideia de abrir um edital convidando engenheiros já formados que quisessem também cursar arquitetura. A partir daí o curso foi criado. Vieram muitos profissionais experientes, que já trabalhavam com construção, e nós passamos a estudar juntos. Foi uma experiência extraordinária.

       

      A ARQUITETURA E A TRANSFORMAÇÃO DE CURITIBA

      Eleonora Beltrão — Curitiba mudou muito ao longo dessas décadas. Quando comecei a estudar arquitetura, a cidade era bem diferente. A abertura do curso trouxe professores de várias regiões do Brasil, com diferentes formações e visões. Isso transformou completamente a cidade.

      Dilva Slomp Busarello — Uma característica muito bonita da arquitetura em Curitiba sempre foi a colaboração entre os profissionais. Nós participávamos de muitos concursos e os arquitetos paranaenses ficaram conhecidos como “papas-concursos”.

      Quando um escritório precisava terminar um projeto para enviar no dia seguinte, outros arquitetos iam ajudar. Existia uma grande solidariedade entre todos.

      Eleonora Beltrão — Esse espírito nasceu ainda na faculdade, nos chamados ateliês horizontais. Todos se conheciam e trabalhavam juntos. Essa união continuou na vida profissional e ajudou a moldar a arquitetura da cidade.

      Isabela Fiori — O que eu sinto é que, em Curitiba, vai passando a geração de arquitetos, mas como corpo, todo mundo se dá bem. Eu vejo como uma colaboração, muito mais que uma competição. Sempre vemos um arquiteto colaborar com o outro, então parece que isso ainda se mantém.

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      Autor
      carol.gelinski
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